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Raízes em cartaz: exposições pelo Brasil celebram arte popular, povos originários e saberes tradicionais

De São Paulo à Amazônia, uma safra generosa de mostras coloca em evidência a produção artística e cultural de comunidades indígenas, mestres do artesanato e guardiões da memória popular brasileira.


Há um fio invisível que atravessa as paredes de museus, galerias e centros culturais espalhados pelo Brasil neste primeiro semestre de 2026. Ele aparece na canoa milenar esculpida em madeira exposta em São Paulo, nos grafismos tupinambá projetados em Salvador, nas fotografias de artistas indígenas que dialogam com imagens do século XIX no Rio de Janeiro, nas vozes amazônicas que ecoam em catálogos digitais e paredes de exibição. Esse fio é feito de resistência, memória e beleza — e revela uma programação cultural que, com rara consistência, escolheu olhar para dentro do Brasil profundo. Um país continental, rico em manifestações culturais e ampla diversidade torna a tarefa de se mapear sempre um desafio. Então propomos esse levantamento mais como um chamamento ao tema e as suas possibilidades, embora sempre tenha algo mais que ficou de fora desse universo que é o caldeirão cultural brasileiro.


São Paulo: múltiplos olhares, um mesmo horizonte

A maior concentração de mostras está na capital paulistana, onde diferentes instituições apostaram, de forma quase simultânea, em exposições que colocam o protagonismo indígena e popular no centro da cena.

Na FGV Arte, a exposição “Eu Chorei Rios: Arte dos Povos Originários da América” é, talvez, o evento mais aguardado da temporada. Organizada pela artista tupinambá Glicéria ao lado do renomado curador Paulo Herkenhoff — responsável por construir um dos maiores acervos de arte indígena do país no MAR, o Museu de Arte do Rio —, a mostra reúne trabalhos de artistas nativos e não nativos de diferentes períodos e latitudes. A proposta vai além da contemplação: Glicéria quer rasgar o véu que insiste em separar as comunidades originárias do restante da sociedade brasileira. “As pessoas esperam um purismo que não existe. Essas artes vêm para aldear o imaginário sobre nós”, afirma a artista. A exposição incorpora registros de performances, fotografias — incluindo ampliações de obras da lendária Maureen Bisilliat — e produções de artistas como o alagoano Ziel Karapotó, estendendo o olhar para além da Amazônia e contemplando vozes originárias do Nordeste e de outras regiões das Américas, como Guatemala e Peru. Mais informações: @fgv.arte

Na Zipper Galeria, a coletiva “Ritos e Alegorias sobre Natureza” propõe um encontro incomum: 16 artistas do mundo ocidental e dos povos originários investigam juntos a natureza em sua potência mágica, simbólica, poética e política. Já na entrada, o visitante se depara com “Anciã”, obra de Moara Tupinambá estampada na fachada. No centro do espaço, uma canoa milenar esculpida em madeira incorpora óculos de realidade virtual que transportam o espectador para os rios que circundam a comunidade da artista — numa fusão improvável e instigante entre ancestralidade e tecnologia. R. Estados Unidos, 1494, Jardim América. Mais informações: @zippergaleria

No Museu das Culturas Indígenas, a coletiva “Ocupação Decoloniza – SP Terra Indígena” pode ser visitada até 31 de maio. Concebida inteiramente por profissionais indígenas, a exposição lança olhares decoloniais sobre o espaço urbano e periférico, desconstruindo narrativas equivocadas que ainda persistem sobre as culturas dos povos originários. Uma mostra que é também um manifesto. R. Dona Germaine Burchard, 451, Água Branca.

"Eu Chorei Rios: Arte dos Povos Originários da América" | FGV Arte - divulgação
“Eu Chorei Rios: Arte dos Povos Originários da América” | FGV Arte – divulgação

Para quem se interessa pelas raízes do pensamento sobre cultura popular brasileira, o Arquivo Histórico Municipal apresenta “Saberes Populares: Andanças de Mário e Inezita” — uma exposição que revela as trajetórias entrelaçadas de dois grandes protagonistas da valorização da cultura brasileira. De um lado, Mário de Andrade e seu trabalho pioneiro à frente do Departamento de Cultura de São Paulo entre 1935 e 1940: as expedições etnográficas a povos indígenas do Mato Grosso, os estudos sobre manifestações afro-brasileiras, as pesquisas sobre a cultura caipira do Vale do Paraíba. Do outro, Inezita Barroso, que transformou esse conhecimento em canção, perpetuando saberes e tornando-se uma das maiores intérpretes da música popular de raiz do país. Mais informações: @arquivohistoricomsp

No MASP, o calendário do segundo semestre reserva dois eventos imperdíveis. Em julho, a artista colombiana Carolina Caycedo ocupa o Edifício Lina Bo Bardi com “Confluências”, mostra que articula fotografia, instalação, vídeo, performance e desenho em torno de saberes ancestrais ribeirinhos e estratégias de resistência de movimentos sociais latino-americanos. Já em outubro, o artista guatemalteco Edgar Calel traz uma poética atravessada por dimensões espirituais e rituais vinculadas à cosmovisão maia-kaqchikel, propondo uma reflexão crítica sobre a marginalização das comunidades indígenas na América Latina. Ambas as mostras integram a programação anual do museu dedicada às histórias latino-americanas. Mais informações: @masp

No Instituto Moreira Salles São Paulo (IMS SP) a exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello, que traça um perfil de Laudelina de Campos Mello (1904–1991), que dedicou a vida à conquista de reconhecimento e direitos para as trabalhadoras domésticas. Foi fomentadora e fundadora do primeiro sindicato do setor no Brasil em sua luta contra a exploração e os abusos. Com fotografias, documentos e objetos históricos em diálogo com obras de artistas da contemporaneidade, a exposição percorre vida, pensamento e militância da sindicalista, em diálogo com temas como antirracismo, sindicalismo, associativismo negro e o direito ao descanso.
Mais informações: @imoreirasalles

Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello - divulgação
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello – divulgação

Rio de Janeiro: do folclore à fotografia histórica

No Rio, várias instituições de referência sustentam a programação voltada à cultura popular e indígena.

No Museu de Folclore Edison Carneiro, no Catete, a Sala do Artista Popular segue sendo um dos programas mais consistentes do país na valorização do artesanato e da arte popular de tradição cultural. Por meio de exposições temporárias que evidenciam técnicas e saberes — muitas vezes transmitidos de geração em geração —, o programa do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan) dá visibilidade a artistas, mestres e comunidades artesanais de diferentes regiões do Brasil. Uma visita essencial para quem quer compreender a diversidade e a riqueza da produção popular nacional. Rua do Catete, 179. Visitação: terça a sexta, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. Mais informações: @cnfcpJá o Instituto Moreira Salles prepara uma das mostras fotográficas mais instigantes do ano: uma seleção de imagens feitas pelo fotógrafo alemão Albert Frisch (1840–1918) durante uma expedição à Amazônia no século XIX será exposta ao lado de criações de artistas indígenas contemporâneos. O confronto entre o olhar estrangeiro do passado e as vozes originárias do presente promete uma experiência densa e reveladora. Mais informações: ims.com.br

Já no Museu do Pontal na Barra da Tijuca a exposição de longa duração Festas, Sambas e Outros Carnavais encanta com a riqueza que a folia sempre traz. Festas, Sambas e Outros Carnavais é a maior exposição já realizada na nova sede do Museu do Pontal, ocupando cerca de 70% do espaço expositivo. A coletiva celebra a riqueza e diversidade das manifestações populares brasileiras, reunindo maracatus, folias, reisados, jongos, bois-bumbá, carimbós, sambas e carnavais em um grande panorama das festas que marcam o país.
Mais informações: @museudopontal

Festas, Sambas e Outros Carnavais - Museu do Pontal - divulgação
Festas, Sambas e Outros Carnavais – Museu do Pontal – divulgação

Bahia: memória e resistência tupinambá

Em Salvador, o Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_Bahia) recebeu a Ocupação ORIGEM como parte da programação do Abril Indígena promovida pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. A mostra reúne pintura, escultura, fotografia e vídeo, com curadoria da fotógrafa Isabel Gouveia, e tem como fio condutor a reflexão sobre colonização, memória e permanência dos povos indígenas. O espaço ganhou os grafismos do artista Thiago Tupinambá e o documentário “Brasil Tupinambá” como âncoras narrativas. Mais informações: @macbahia

No Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, a ampliação do Núcleo dos Povos Originários propõe um diálogo tenso e necessário entre representações históricas: a obra “Vista do Rio Paraguaçu”, de Jean Baptiste Grenier, e imagens inspiradas em trabalhos de Jean-Baptiste Debret são colocadas em contraponto com perspectivas contemporâneas, evidenciando processos de resistência e sobrevivência cultural ao longo do tempo.


Ceará: imersão e liberdade indígena

Em Fortaleza, o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE) apresenta “Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna”, mostra imersiva exibida às sextas e sábados, das 13h às 16h. Paralelamente, na Galeria da Liberdade — integrada ao conjunto arquitetônico do Palácio da Abolição —, está em cartaz “Encantarias da Liberdade Indígena no Ceará”, que celebra as expressões culturais e espirituais dos povos originários cearenses. Toda a programação é gratuita e de livre acesso. Mais informações: @misce

Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna - MIS CE - divulgação
Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna – MIS CE – divulgação

Amazônia: arte como resistência territorial

Encerrando o percurso, a exposição “Arte, Amazônia e seus Povos: A Amazônia é agora! A Amazônia somos nós!”, iniciativa da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul, reúne obras de 18 artistas, coletivos e comunicadores de diversas regiões do país. A proposta celebra a força criativa, política e ancestral da Amazônia e de seus povos — e está disponível também em catálogo digital, ampliando seu alcance para além das paredes expositivas. Mais informações: @artigo19brasil


Num país que ainda luta para reconhecer a pluralidade de suas origens, ver esses nomes e narrativas ocupando museus, galerias e centros culturais de norte a sul é, em si, um ato político e poético. Vale a visita — e a escuta.