Comer é um ato ideológico: livro reúne dez anos de reflexões sobre comida, cultura e sociedade
Publicação reúne 40 textos de Raul Lody publicados entre 2015 e 2025 no blog Brasil Bom de Boca, com fotografias de Jorge Sabino.
Publicação, impressa e em eBook, reúne 40 textos de Raul Lody publicados entre 2015 e 2025 no blog Brasil Bom de Boca, com fotografias de Jorge Sabino.
A relação entre comida, cultura, memória, território e identidade é o eixo de Comer é um ato ideológico, livro que reúne 40 textos de Raul Lody publicados originalmente no blog Brasil Bom de Boca ao longo de uma década. Com fotografias de Jorge Sabino, a publicação da Raiz Livros marca os dez anos do projeto dedicado à reflexão sobre os sistemas alimentares e suas relações com a sociedade brasileira.
Criado em 2015, o Brasil Bom de Boca surgiu com a proposta de observar a alimentação para além de seus aspectos nutricionais ou gastronômicos. Seus textos abordam ingredientes, receitas, modos de preparo, utensílios, mercados, festas, rituais, religiosidades e práticas alimentares como manifestações relacionadas à história e à organização social dos diferentes grupos que formam o Brasil.
Ao longo dos dez anos, o blog publicou dezenas de artigos anuais. A seleção reunida no livro percorre diferentes momentos dessa produção e evidencia alguns dos temas recorrentes na pesquisa de Raul Lody: as cozinhas regionais, os patrimônios alimentares, as heranças africanas e indígenas, as cozinhas de imigração, os mercados, os sistemas religiosos e os significados atribuídos aos alimentos.
O ponto de partida do livro está no entendimento de que comer é também uma prática cultural. A escolha dos ingredientes, as formas de preparo e conservação, os horários e ocasiões em que determinados alimentos são consumidos, os espaços onde se come e as pessoas com quem se compartilha uma refeição estão relacionados a códigos sociais, religiosos, econômicos e ambientais.

Dez anos de Brasil Bom de Boca
A trajetória do blog acompanha uma década de transformações na maneira como a alimentação é discutida no campo da cultura. Em vez de tratar a comida apenas como produto ou como expressão gastronômica, os textos publicados no Brasil Bom de Boca investigam os sistemas de significados que se formam ao redor dela.
Entre os primeiros textos selecionados estão reflexões sobre o pirão, o pensamento de Gilberto Freyre sobre a culinária brasileira, o sarapatel e as relações entre comida e religiosidade no Xangô do Recife.
Nos anos seguintes, aparecem temas como comida de terroir, o Manifesto Regionalista de 1926, a comida considerada “típica”, a louça caxixi da Bahia e o arroz de hauçá, relacionado às tradições afro muçulmanas.
A seleção também passa por questões como o sacrifício de animais, os rituais da Páscoa, a gula, o Olubajé, a alimentação de matriz religiosa, as cozinhas de imigração, os mercados e os efeitos da globalização sobre os hábitos alimentares.
Durante a pandemia, o blog incorporou questões relacionadas às mudanças nos sistemas de alimentação e consumo, abordando a desglobalização, a regionalização da comida, os serviços de entrega e a cultura das quentinhas.
Nos textos mais recentes, aparecem discussões sobre a relação entre comida e mídia, turismo gastronômico, tradições religiosas, ingredientes específicos e acontecimentos históricos relacionados à alimentação.

A comida como memória e pertencimento
Para Raul Lody, a alimentação não pode ser dissociada das experiências sociais e culturais que acompanham cada indivíduo e cada comunidade. Ingredientes e receitas carregam informações sobre territórios, práticas familiares, religiosidades, relações econômicas e processos históricos.
Essa perspectiva também desloca a ideia de receita como algo exclusivamente técnico. Um prato pode envolver conhecimentos transmitidos entre gerações, formas específicas de manipulação dos ingredientes, utensílios próprios, calendários festivos e religiosos e maneiras particulares de organizar a mesa e compartilhar a comida.
O livro percorre esses diferentes níveis de interpretação. Em textos sobre alimentos brasileiros e práticas alimentares, o autor relaciona sabor, memória, território e pertencimento, observando como determinados alimentos podem funcionar como referências de identidade individual e coletiva.
A dimensão religiosa ocupa lugar importante nessa abordagem. O oferecimento de alimentos às divindades e aos ancestrais, as comidas preparadas para determinadas celebrações e as restrições alimentares são analisados como práticas que articulam corpo, fé, comunidade e memória.

Um arquivo de dez anos de pesquisa
A seleção dos 40 artigos permite acompanhar parte do percurso de investigação desenvolvido no Brasil Bom de Boca entre 2015 e 2025.
Entre os textos reunidos estão:
2015
Divino pirão: uma criação patrimonial brasileira; Um mapa culinário do Brasil — o olhar multicultural de Gilberto Freyre; Sarapatel bom é o de feira; Comer no Xangô — o lugar patrimonial do Sítio de Pai Adão no Recife.
2016
Comidas de terroir — os 90 anos do Manifesto Regionalista; Comida “típica”: uma interpretação ideológica; A louça caxixi: as miniaturas de barro da Bahia; Arroz de hauçá, uma comida afro-muçulmana.
2017
Cada vez mais circo e menos pão; Carne para comer — o sacrifício dos animais; Mão de cozinha; Páscoa: ritos de sangue e tradição.
2018
Gula: um sentimento que vai além do prato; Olubajé: os alimentos da colheita; Rosca de rei, um pão que é uma coroa; Vinho, a poesia dos sabores.
2019
A árvore que come; Comer: um ato ideológico; Cozinhas imigrantes no século XXI; Mercados: as representações coletivas de um lugar.
2020
Desglobalização e regionalização — a nova onda da comida; Comida pronta para entregar e a cultura das quentinhas; O Menino-Jesus e a geleia de araçá; Milho que te quero milho ou comendo Minas Gerais.
2021
A comida é sagrada; Em busca da festa perdida; Farofa, divina farofa; O veneno no sabor brasileiro.
2022
Ibérico e nordestino — os gostos da terra; Mastigando com Mário de Andrade; Um século pensando a cozinha baiana; Utensílios de cozinhas & mesas.
2023
Bacalhau: um símbolo da heráldica do Carnaval; Chipa e pão de queijo: os sabores da mandioca; O bom ingrediente versus o junk food; Para dar de comer ao caboclo — celebração do bicentenário da Independência da Bahia.
2024
Dar pro santo; Exu é o dono da feira, da Feira de São Joaquim da Cidade do São Salvador; O inhame da Costa — a comida no 1º Congresso Afro-Brasileiro no Recife completa 90 anos; O sentido alimentar dado pelo objeto — os 200 anos da porcelana e do cristal Vista Alegre.
2025
A ostentação da comida e o seu lugar midiático; O pão de Santo Antônio: tradição e fé partilhada com o povo do Candomblé na Igreja de São Francisco, Salvador, Bahia; Turismo gastronômico: muito além do prato; Wodonú: Azanodô, venha comer.

Raul Lody
Antropólogo, pesquisador e escritor, Raul Lody desenvolve trabalhos relacionados à cultura brasileira, especialmente às manifestações afro-brasileiras, à alimentação e aos patrimônios culturais. Sua produção reúne pesquisas sobre culinária, religiosidade, objetos, festas, mercados e práticas sociais.
Em Comer é um ato ideológico, parte dessa produção ganha uma nova organização editorial. Os textos originalmente publicados em diferentes momentos no blog passam a integrar uma publicação que permite observar, em conjunto, dez anos de reflexão sobre alimentação e cultura.
Com fotografias de Jorge Sabino, edição de Edgard Steffen Junior e publicação da Raiz Livros, o livro também funciona como registro de uma década do Brasil Bom de Boca, projeto que permanece disponível online.
Jorge Sabino
Jorge Sabino, pernambucano, graduado em Artes Gráficas, com especialização em fotografia.
Atua desde 2006 em pesquisas de campo no Brasil com o tema “doçaria tradicional”, também desenvolve pesquisas visuais sobre “as rotas do Açúcar no Mediterrâneo,” tendo registrado em muitas viagens as regiões do Algarve, Ilha da Madeira, Ilha Terceira, Açores, grande Lisboa, em Portugal; regiões da Catalunha e de León e Castilla, na Espanha; regiões do Lacio, Torino, Toscana, Campanha, Sicília, na Itália; Marrocos, Argélia, Tunísia, quando na África; realizou apoio à pesquisa para os livros: Brasil bom de boca; A Virtude da Gula, Águas de Comer, todos de Raul Lody, edição Senac São Paulo.
Assina com exclusividade as fotografias do Dicionário do Artesanato Popular Brasileiro, Ibep.

Brasil Bom de Boca
O conteúdo do blog pode ser consultado em:
https://brasilbomdeboca.com.br
O site reúne os artigos publicados ao longo dos dez anos de atividade do projeto e constitui o arquivo digital que deu origem à seleção reunida no livro.

Ficha técnica
COMER É UM ATO IDEOLÓGICO: 10 anos do blog Brasil Bom de Boca
Textos: Raul Lody
Fotografias: Jorge Sabino
Editora: Raiz Livros
Conteúdo: seleção de 40 artigos publicados no blog Brasil Bom de Boca entre 2015 e 2025.
Número de páginas : 222 páginas
ISBN-13 : 979-8195532857
Peso do produto : 653 g
Dimensões : 21.59 x 1.27 x 27.94 cm
Para comprar o seu acesse:
https://www.amazon.com.br/COMER-UM-ATO-IDEOL%C3%93GICO-Portuguese/dp/B0GZWRN4YQ/ref=sr_1_1

