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Livro aborda infâncias indígenas e afro-brasileiras

Obra de Rosiane Rodrigues apresenta às crianças os modos de vida, os saberes e as cosmologias de povos originários e comunidades tradicionais, dialogando com os desafios da educação intercultural no Brasil.

Às vésperas do Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto, chega ao debate público uma obra voltada à formação de leitores que propõe ampliar o repertório sobre a diversidade cultural brasileira desde os primeiros anos da educação. Omodé e Curumim: Infâncias Indígenas e Afro-Brasileiras, da antropóloga Rosiane Rodrigues, convida crianças, educadores e famílias a conhecer diferentes formas de viver a infância a partir das experiências dos povos indígenas e das comunidades tradicionais de matriz africana.

Publicado pela Editora Moderna, com ilustrações de Isabela Santos, o livro integra um conjunto de produções voltadas à implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que tornaram obrigatório o ensino da história e das culturas afro-brasileiras, africanas e indígenas nas escolas brasileiras. Mais do que atender a uma exigência curricular, a publicação busca ampliar a compreensão sobre a pluralidade que constitui a sociedade brasileira.

Segundo o Censo Demográfico 2022, realizado pelo IBGE, o Brasil reúne cerca de 1,7 milhão de indígenas pertencentes a mais de 300 povos, que falam centenas de línguas e ocupam territórios em todas as regiões do país. Ao mesmo tempo, comunidades quilombolas, povos de terreiro, caiçaras, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e diversos outros grupos tradicionais mantêm práticas culturais, formas de organização social e conhecimentos que continuam desempenhando papel fundamental na preservação ambiental, na produção de alimentos, na transmissão de saberes e na construção da identidade nacional.

É nesse contexto que o livro propõe apresentar às crianças um Brasil frequentemente ausente dos materiais didáticos convencionais. A narrativa evidencia que esses povos não pertencem ao passado, mas fazem parte da vida contemporânea, produzindo conhecimento, cultura, ciência, arte e formas próprias de compreender o mundo.

A autora explica que o projeto nasceu da necessidade de aproximar o universo infantil dessa diversidade.

Pensar o mundo a partir da perspectiva dos povos e comunidades tradicionais tem o intuito de afirmar suas existências e valorizar seus modos de vida e memórias, que constituem as crianças e jovens indígenas, quilombolas, marisqueiras, de terreiro etc. Essas comunidades têm muito a nos ensinar. É para elas e por elas que este livro foi elaborado“, afirma Rosiane Rodrigues.

Infâncias no plural

Em vez de apresentar uma visão homogênea sobre a infância, Omodé e Curumim evidencia que existem múltiplas maneiras de aprender, brincar, conviver e construir conhecimento.

O próprio título sintetiza essa proposta. Diante da enorme diversidade de idiomas indígenas e africanos presentes no Brasil, Rosiane optou por utilizar duas palavras amplamente conhecidas: omodé, termo de origem iorubá que significa criança, e curumim, palavra de origem tupi igualmente associada à infância.

A escolha revela uma perspectiva que reconhece a criança como sujeito de conhecimento, característica presente em diferentes povos indígenas e comunidades de matriz africana, onde o aprendizado ocorre por meio da convivência cotidiana, da oralidade, da observação da natureza e da participação nas atividades comunitárias.

Ao longo das páginas, o leitor entra em contato com modos de vida que articulam território, memória, ancestralidade, espiritualidade, alimentação, linguagem e cuidado ambiental, apresentando uma concepção ampliada da infância e da educação.

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Povos e comunidades tradicionais

A publicação também apresenta um panorama da diversidade sociocultural brasileira ao abordar diferentes povos e comunidades tradicionais reconhecidos pela legislação nacional.

Entre eles estão andirobeiras, apanhadores de flores sempre-vivas, benzedeiras, caboclos, caiçaras, castanheiros, catadores de mangaba, catingueiros, cipozeiros, comunidades de fundo e fecho de pasto, extrativistas, faxinalenses, pescadores artesanais, povos ciganos, povos de terreiro, comunidades de matriz africana e ribeirinhos, entre muitos outros.

Mais do que listar grupos sociais, o livro evidencia como essas comunidades desenvolveram conhecimentos próprios sobre agricultura, manejo ambiental, medicina tradicional, organização coletiva e preservação dos territórios, aspectos cada vez mais valorizados nos debates contemporâneos sobre sustentabilidade e patrimônio cultural.

Educação e diversidade

A publicação dialoga diretamente com um movimento crescente da educação brasileira voltado à valorização da diversidade étnica e cultural.

Ao apresentar às crianças diferentes formas de produzir conhecimento e interpretar a realidade, o livro contribui para ampliar referências culturais, combater estereótipos e estimular práticas pedagógicas fundamentadas no respeito às diferenças.

Nesse sentido, a obra também se aproxima das discussões desenvolvidas por pesquisadores das áreas de antropologia, educação e patrimônio cultural, que defendem a incorporação dos saberes tradicionais aos processos educativos como parte da construção de uma sociedade mais plural.

Sobre a autora

Rosiane Rodrigues é doutora e mestre em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com atuação voltada às relações étnico-raciais, educação, patrimônio cultural e antropologia das populações tradicionais.

Especializou-se em Altos Estudos do Holocausto no Museu Yad Vashem, em Jerusalém, possui pós-graduação em Educação para as Relações Étnico-Raciais pelo CEFET-RJ e integra atualmente o Laboratório de Gestão Social do Patrimônio (MILONGA), da Universidade Federal da Bahia.

Sua produção acadêmica investiga os processos de construção da memória, da identidade e dos patrimônios culturais, temas que atravessam também sua atuação como escritora.

Ilustrações

As imagens são assinadas por Isabela Santos, ilustradora formada em Design Gráfico pela Universidade do Estado de Minas Gerais.

Criada em diferentes regiões do Centro-Norte do país, a artista desenvolveu uma pesquisa visual dedicada às múltiplas experiências da infância brasileira. Em 2023, foi finalista do Nami Concours, um dos principais prêmios internacionais de ilustração infantil.

Serviço

Omodé e Curumim: Infâncias Indígenas e Afro-Brasileiras
Autora: Rosiane Rodrigues
Ilustrações: Isabela Santos
Editora: Moderna
Páginas: 80
Leitura indicada: a partir de 6 anos