Caipiras: das tropas à moda de viola revisita a construção da identidade paulista
Com cerca de 50 obras de 28 artistas do acervo da Pinacoteca de São Paulo, mostra na Pinacoteca Municipal Miguel Dutra propõe uma leitura crítica da figura do caipira na arte brasileira.
A figura do caipira, tão presente no imaginário paulista, é tema de uma exposição que chega a Piracicaba no dia 26 de setembro. “Caipiras: das tropas à moda de viola” reúne cerca de 50 obras de 28 artistas do acervo da Pinacoteca de São Paulo, sob curadoria de Yuri Quevedo, e propõe olhar para além da imagem nostálgica do homem do campo, investigando como essa representação foi construída pela arte e pelos projetos políticos de seu tempo.
Em cartaz na Pinacoteca Municipal Miguel Dutra, no Parque do Engenho Central, a mostra deriva de “Caipiras: das derrubadas à saudade”, apresentada na Pina Luz entre novembro de 2024 e maio de 2025. A nova edição aproxima o público do interior paulista de obras históricas que ajudam a compreender a formação de uma identidade regional — e também as exclusões que marcaram esse processo.
Ao longo de 130 anos, a representação do caipira tornou-se um dos temas recorrentes do acervo da Pinacoteca e uma das imagens mais reconhecidas pelo público. As pinturas de Almeida Júnior, em particular, costumam despertar lembranças de uma vida ligada à terra, ao trabalho rural e aos costumes do interior. A exposição, porém, convida a considerar o contexto em que essas imagens surgiram.
Segundo o curador Yuri Quevedo, as pinturas do final do século XIX não eram retratos neutros da vida caipira. Elas também respondiam a um projeto de setores da elite cultural empenhados em afirmar a modernização de São Paulo e sua posição no país. Nesse processo, o caipira foi escolhido como figura ancestral do paulista a partir de uma ideia de mestiçagem entre indígenas e europeus que excluía a população negra.
A mostra evidencia essas tensões e coloca em diálogo obras que representam pessoas negras em contextos caipiras, embora nem sempre fossem identificadas como tais. Ao reunir essas imagens, a exposição torna visível uma sociedade mais diversa e complexa do que aquela sugerida por determinadas narrativas de origem.
A escolha de Piracicaba também estabelece uma relação direta com a história artística local. Entre os nomes presentes estão Almeida Júnior, Miguelzinho Dutra e Pedro Alexandrino, artistas que viveram ou trabalharam na região e registraram suas paisagens e personagens. Para além da circulação de obras da coleção paulista, a exposição aproxima o público de referências que fazem parte da memória cultural da cidade.
Três núcleos, diferentes representações
A exposição está organizada em três núcleos temáticos. “A construção dos caipiras” parte de duas versões de Caipira Picando Fumo e de Amolação Interrompida, de Almeida Júnior, para discutir a pintura de gênero e a criação de tipos sociais. O núcleo também aborda a construção do caipira como síntese de uma suposta origem branco-indígena, em contraste com as representações de pessoas negras presentes no acervo.
Em “Tropeiros, derrubadores e bandeirantes”, a narrativa recua para imagens de viajantes sobre tropeiros e habitantes da então província de São Paulo. As obras incluem representações de bandeirantes — retratados tanto como heróis quanto em situações de pobreza e humilhação — e paisagens que documentam a derrubada da mata nativa ao longo de oito décadas.
O terceiro núcleo, “Os tempos mudam: a moda de viola e a nostalgia”, aborda aspectos do sistema cultural caipira, como a vida doméstica, os hábitos e as crenças. Nesse conjunto, o trabalhador rural passa a ser representado não apenas como tipo social ou alegoria, mas também como personagem de narrativas dramáticas e comoventes.

Almeida Júnior e os caminhos do caipira
Almeida Júnior (Itu, 1850 – Piracicaba, 1899) ocupa lugar central na mostra. Entre as obras reunidas estão as primeiras versões de Caipira Picando Fumo e Amolação Interrompida, ambas de 1893, além de Estudo para Cabeça de Caipira (1893), Nhá Chica (1895), Apertando o Lombilho (1895) e Cozinha Caipira (1895).
Também integram o conjunto Estudo para “Caipiras Negaceando” (1888), Estudo para “Partida da Monção” (1897) e as paisagens Paisagem Fluvial e Paisagem do Sítio Rio das Pedras, ambas de 1899. A exposição se encerra com O Violeiro (1899), tela em que a figura caipira assume contornos de personagem dramático. Outro destaque é o Retrato do Dr. Cesário Motta, médico e político que teve papel importante na encomenda de obras regionalistas para o acervo do então Museu Paulista.
Entre os demais artistas estão Henrique Bernardelli, com Cabeça de Negro (1899) e Bandeirante e Índia (Prólogo) (c. 1895); Monteiro França, com Ressonando (1906) e Cabeça de Negro; e Johann Moritz Rugendas, autor da litografia Défrichement d’une forêt (Derrubada de uma floresta), produzida entre 1827 e 1835, um dos registros mais antigos da exposição sobre o desmatamento no Brasil.
Jean Baptiste Debret está representado pela litografia Blanchisseuses à la rivière/Maquignons paulistes (1835). Já Miguelzinho Dutra (Itu, 1812 – Piracicaba, 1875), patrono da Pinacoteca Municipal, participa com aquarelas de viagem realizadas na década de 1840, nas quais registrou paisagens do interior paulista.
Ao colocar lado a lado essas diferentes imagens, “Caipiras: das tropas à moda de viola” acompanha as transformações de uma representação que atravessou gerações e permanece presente na cultura visual brasileira. A exposição permite observar tanto a força dessas obras quanto as escolhas e ausências que ajudaram a moldar a ideia de identidade paulista.
A Pinacoteca Municipal Miguel Dutra
Inaugurada em agosto de 1969, a Pinacoteca Municipal Miguel Dutra foi idealizada por Archimedes Dutra para abrigar diferentes formas de expressão das artes plásticas de Piracicaba. Desde maio de 2024, funciona como Nova Pinacoteca no Armazém 14A do Parque do Engenho Central.
Seu nome homenageia Miguel Arcanjo Benício de Assumpção Dutra, o Miguelzinho Dutra, artista multifacetado que atuou como pintor, escultor, arquiteto, poeta, entalhador, ourives e músico. É especialmente conhecido pelas aquarelas que registram paisagens e tipos humanos do interior paulista no século XIX.

Serviço
Caipiras: das tropas à moda de viola
Local: Pinacoteca Municipal Miguel Dutra — Parque do Engenho Central, Armazém 14A
Endereço: Av. Maurice Allain, 454, Piracicaba (SP)
Período: 26 de setembro a 6 de dezembro de 2026
Visitação: de terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada: gratuita
Curadoria: Yuri Quevedo

