Maior exposição dedicada à arte negra no país, chega a Franca
Mostra Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro reúne cerca de 90 obras de 76 artistas e coletivos e aproxima a produção negra brasileira das trajetórias de Abdias Nascimento, Isa do Rosário e Carlos de Assumpção.
Uma das mais importantes exposições recentes dedicadas à produção artística negra brasileira chega ao interior de São Paulo com um recorte especialmente conectado ao território. A partir de 29 de agosto, o Sesc Franca recebe Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, mostra que reúne cerca de 90 obras de 76 artistas e coletivos de diferentes gerações e regiões do país. A abertura acontece no dia 28, às 19h, com apresentação da Velha Guarda da Mangueira, que celebra 70 anos de trajetória.
Em Franca, a exposição ganha uma configuração própria ao estabelecer diálogos com a história cultural e política da cidade. Entre os artistas presentes estão três nomes que possuem vínculos particularmente fortes com o município: Abdias Nascimento, Isa do Rosário e Carlos de Assumpção. Suas trajetórias ajudam a aproximar questões históricas e contemporâneas da arte negra brasileira da experiência local.
Pinturas, fotografias, esculturas, instalações, objetos, trabalhos têxteis, documentos e produções audiovisuais ocupam o espaço expositivo, revelando uma produção marcada pela diversidade de linguagens e por temas como memória, espiritualidade, identidade, resistência, ancestralidade e organização coletiva.
Com curadoria-geral de Igor Simões e curadoria-adjunta de Lorraine Mendes e Marcelo Campos, a montagem mantém a proposta conceitual apresentada anteriormente no Sesc Belenzinho, em São Paulo, e no Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis, mas incorpora elementos específicos de Franca. Sete obras do Acervo Sesc de Arte passam a integrar a exposição, com trabalhos de No Martins, Eustáquio Neves, Isa do Rosário, Lidia Lisbôa, Jorge dos Anjos e Miguel Penha Chiquitano.

Franca no mapa da arte negra brasileira
A presença de Abdias Nascimento ganha um significado especial. Nascido em Franca, em 1914, o artista, escritor, dramaturgo, professor, político e ativista foi fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN) e uma das principais referências do pensamento antirracista e pan-africanista no Brasil.
Sua trajetória atravessou as artes, a política e a luta contra o racismo, fazendo de sua obra uma referência fundamental para compreender a construção do pensamento negro brasileiro no século XX. Abdias também é patrono da Casa da Cultura e do Artista Francano.
A relação da cidade com o artista esteve presente desde a própria inauguração do Sesc Franca, em 2024, quando a unidade abriu suas atividades com O Quilombismo – Documentos de uma Militância Pan-africanista, exposição dedicada à vida, à obra e ao pensamento de Abdias.
Outro nome que aproxima a mostra do território é Isa do Rosário. Nascida em Batatais, ela construiu uma relação profunda com Franca por meio do movimento negro local e de iniciativas ligadas à arte, à educação e à preservação da cultura afro-brasileira. Durante a pandemia de Covid-19, estabeleceu residência definitiva na cidade.
Bordadeira, artista visual, poeta, contadora de histórias e guardiã de saberes ancestrais, Isa transforma tecidos, fios, memórias e referências aos orixás em trabalhos que abordam diáspora, espiritualidade, cura e resistência. Sua produção já esteve na Bienal de Liverpool, na Inglaterra, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Museu Afro Brasil, em São Paulo.
Também ligado à cidade está Carlos de Assumpção, nascido em Tietê, em 1927, mas que escolheu Franca como lugar de vida, atuação profissional e criação literária. Advogado e membro da Academia Francana de Letras, tornou-se uma referência da poesia afro-brasileira. Seu poema Protesto, escrito em 1958, permanece como uma das obras marcantes da literatura negra brasileira, pela denúncia do racismo e pela defesa da liberdade e da dignidade.

Sete caminhos para pensar a experiência negra
A exposição está organizada em sete núcleos que funcionam como diferentes portas de entrada para a produção artística e o pensamento negro brasileiro.
Em Romper, as obras questionam os critérios que historicamente definiram o que deveria ser reconhecido como arte brasileira. O núcleo confronta o cânone construído sob a perspectiva da branquitude e recupera a presença de artistas negros que participaram da formação artística do país, mas foram frequentemente apagados, marginalizados ou enquadrados em categorias consideradas secundárias.
Branco Tema propõe uma inversão do olhar. Se durante séculos pessoas negras foram transformadas em objetos de observação e representação por artistas e pesquisadores brancos, aqui artistas negros assumem a autoria desse olhar e fazem da branquitude, de seus privilégios e de suas estruturas de poder um campo de investigação.
Já Negro Vida desloca a representação da experiência negra para além das narrativas de violência e sofrimento. Corpos, afetos, festas, intimidades, desejos, memórias familiares e diferentes formas de existência aparecem em trabalhos que exploram tanto a figuração quanto a abstração e a experimentação formal.
O protagonismo das mulheres negras está no centro de Amefricanas, núcleo inspirado no conceito de amefricanidade formulado por Lélia Gonzalez. Maternidade, trabalho, espiritualidade, sexualidade, cuidado, liderança e resistência aparecem como dimensões de experiências que também produzem conhecimento, preservam saberes e sustentam comunidades.
Em Organização Já, quilombos, associações, irmandades, escolas de samba, movimentos sociais e grupos culturais revelam diferentes formas de organização coletiva. A resistência aparece não apenas como reação à violência, mas também como construção de espaços de educação, sociabilidade, celebração, autonomia e criação de futuros possíveis.
Legítima Defesa parte de uma afirmação atribuída ao abolicionista e escritor Luiz Gama para refletir sobre as respostas às estruturas de violência, exploração e exclusão. Raiva, denúncia, ironia, confronto e proteção do corpo aparecem como forças políticas e poéticas, mostrando que a resistência pode se manifestar tanto em ações coletivas quanto em gestos artísticos.
Fechando o percurso, Baobá aborda ancestralidade, espiritualidade, memória e transmissão de saberes. Inspirado em uma obra de Emanoel Araújo, o núcleo estabelece relações entre passado, presente e futuro e reúne referências às religiões de matriz africana, à oralidade, às cosmologias e aos conhecimentos comunitários. A ancestralidade é apresentada não como uma volta idealizada ao passado, mas como fonte de criação e orientação para o presente.

Arte negra em diferentes territórios
A diversidade territorial é um dos aspectos centrais de Dos Brasis. A exposição reúne artistas de estados de todas as regiões do país e inclui trabalhos individuais e coletivos, além de produções vinculadas a comunidades quilombolas e manifestações culturais.
Entre os participantes estão nomes como Abdias Nascimento, Afonso Pimenta – Retratistas do Morro, Aline Motta, Ana das Carrancas, Emanoel Araújo, Renata Felinto, Rafael Bqueer, Roger Cipó, Yhuri Cruz, além de coletivos, comunidades e grupos como a Estação Primeira de Mangueira, Quilombo do Campinho, Quilombo Pedra D’Água e Folguedo dos Caretas de Triunfo.
A programação de abertura amplia esse diálogo. A apresentação da Velha Guarda da Mangueira, grupo que celebra sete décadas de trajetória, aproxima a exposição das matrizes do samba carioca e evidencia a importância das manifestações coletivas na formação da cultura negra brasileira.
Educação e acessibilidade
A exposição também terá uma programação educativa voltada a diferentes públicos. Sob coordenação de Andrea Mendes, o Programa Educativo realizará mediações, receberá grupos agendados e desenvolverá atividades relacionadas às obras e aos temas apresentados pela mostra.
A experiência poderá ser acessada por diferentes públicos por meio de recursos como vídeos em Libras, audiodescrição, paisagem sonora, legendas em braile, pictogramas, conteúdos acessíveis por QR Codes e uma obra tátil.

Uma exposição construída em movimento
Dos Brasis nasceu de uma pesquisa desenvolvida pelo Departamento Nacional do Sesc a partir de 2018, inicialmente articulada ao eixo Afrobrasilidades: narrativas, memória e resistência. O processo envolveu profissionais do Sesc de diferentes estados e atividades realizadas em pelo menos 40 cidades de 14 unidades federativas.
A primeira montagem da exposição foi apresentada em agosto de 2023, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, onde recebeu mais de 140 mil visitantes. Em 2024, a mostra chegou ao Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis, com 384 obras de 241 artistas.
A chegada a Franca mantém a dimensão nacional do projeto, mas reforça uma característica fundamental da exposição: a possibilidade de cada território produzir novas conexões a partir das obras. Em vez de apresentar uma narrativa única sobre a arte negra brasileira, Dos Brasis coloca diferentes histórias, linguagens, memórias e experiências em contato — e faz de Franca mais um desses lugares de encontro.
SERVIÇO
Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro
Curadoria-geral: Igor Simões
Curadoria-adjunta: Lorraine Mendes e Marcelo Campos
Abertura: 28 de agosto de 2026, às 19h
Visitação: 29 de agosto de 2026 a 31 de janeiro de 2027
Local: Sesc Franca – Av. Alonso Y Alonso, 3071 – Prolongamento Jardim Paulista
Entrada: gratuita


