Photothings leva a fotografia contemporânea para a periferia de São Paulo
Festival ocupa o Centro Cultural Monte Azul com exposição, fotolivros, oficinas, encontros e leituras de portfólio; programação gratuita acontece nos dias 26 e 27 de setembro.
A fotografia contemporânea brasileira ganha novos espaços de circulação em São Paulo com a chegada do Festival Photothings 2026 ao Centro Cultural Monte Azul, na zona sul da cidade. Nos dias 26 e 27 de setembro, o evento reúne exposição, lançamento de publicações, oficinas, encontros com fotógrafos e profissionais do setor e leituras de portfólio, em uma programação inteiramente gratuita.
Criado em 2021 por Marly Porto e realizado pela Porto de Cultura, o Photothings nasceu com a proposta de pesquisar, promover e ampliar a circulação da fotografia brasileira. Desde 2024, o festival vem deslocando sua programação para territórios periféricos da capital paulista, aproximando a produção fotográfica de públicos que historicamente tiveram menos acesso aos circuitos especializados das artes visuais.
A escolha do Monte Azul, portanto, não é apenas uma mudança de endereço. É parte da própria concepção do festival: descentralizar a produção e a circulação da fotografia, criando possibilidades de encontro entre artistas, pesquisadores, profissionais e moradores do território.
Fotografia além dos circuitos tradicionais
Ao ocupar um equipamento cultural localizado junto à favela Monte Azul, o Photothings amplia a discussão sobre quem produz, quem vê e onde circula a fotografia contemporânea.
A proposta é reduzir barreiras econômicas e geográficas que muitas vezes afastam determinados públicos das artes visuais. Ao mesmo tempo, o festival cria oportunidades para que artistas apresentem suas pesquisas, estabeleçam interlocuções profissionais e encontrem novos caminhos para fazer suas obras circularem.
Para Marly Porto, a experiência de uma obra não precisa se encerrar no momento em que ela é apresentada ao público. A exposição, o livro, a revista e os encontros profissionais podem funcionar como diferentes formas de continuidade para uma mesma produção.
Marly é curadora adjunta da coleção de fotografias brasileiras da Bibliothèque nationale de France desde 2023 e dirige o Espaço Porto, em São Paulo, dedicado à formação, exposições e outras ações relacionadas às artes visuais.

Uma fotografia que olha o presente
O centro do festival é a exposição coletiva que reúne fotografias selecionadas a partir da convocatória de 2026. O conjunto apresenta diferentes perspectivas sobre o Brasil contemporâneo e evidencia a diversidade de temas, territórios e experiências presentes na produção fotográfica atual.
Entre os trabalhos aparecem questões relacionadas à crise climática e suas consequências, religiosidade, manifestações populares, questões sociais, afrorreligiosidade, território e gênero.
As obras serão apresentadas em impressões fine art, ampliadas, emolduradas e acompanhadas de legendas. A opção por uma exposição física reforça uma dimensão importante do projeto: oferecer à fotografia uma experiência que ultrapasse a tela e a circulação digital.
A mostra será acompanhada ainda por uma revista dedicada aos artistas participantes, ampliando o tempo de vida da exposição e criando outro suporte para o registro e a circulação dos trabalhos.
Encontros colocam diferentes gerações em diálogo
A programação do Diálogos Photothings reúne fotógrafos, artistas, pesquisadores e profissionais de diferentes gerações em oito encontros durante os dois dias do festival.
As conversas abordam processos de criação, pesquisa, território, mercado, memória e diferentes formas de atuação no campo da fotografia.
No sábado, 26 de setembro, participam Marina Frúgoli e Paul Clemence, às 14h; Dan Agostini, Isabella Finholdt e Leonardo Carrato, às 15h; Flávio Ferreira e Paulo Henrique Costa, às 16h; e Jef Delgado e Rui Mendes, às 17h.
No domingo, 27, os encontros começam com Dayan de Castro e Ligia Minami, às 14h; seguem com Cícero Costa e Jéssica Mangaba, às 15h; Mariano Klautau Filho e Renan Teles, às 16h; e terminam com Ciça Pereira e Roger Cipó, às 17h.

Fazer fotografia também é aprender
O caráter formativo aparece ainda nas cinco oficinas gratuitas oferecidas pelo festival. Com vagas limitadas e inscrição prévia, as atividades propõem diferentes aproximações com a fotografia e com a produção do livro como objeto.
A programação inclui “Retratos de Dentro – Caminhada Fotográfica não é Safari”, com Léu Britto; “Experiência Digicam: Fotografia Criativa com Câmeras Retrô Digitais”, com Júlio Bomfim; “Confecção de um Caderno/Livro Artesanal com Costura Aparente”, com Eliana Yukawa; “Enquadramento e Composição Fotográfica para Iniciantes”, com Melissa Szymanski; e “Bem-Vindo ao Cotidiano”, com Gabriel Lordello.
Outro espaço de formação são as leituras de portfólio, destinadas a fotógrafos que desejam apresentar seus trabalhos e discutir seus percursos com profissionais convidados. A atividade possibilita uma conversa individual e uma análise crítica das pesquisas, contribuindo tanto para o desenvolvimento dos projetos quanto para a construção de estratégias de apresentação e circulação.
O fotolivro como forma de permanência
Uma das características mais interessantes do Photothings é a atenção dada ao fotolivro como instrumento de circulação da produção autoral.
Em 2026, a Coleção Photothings ganha cinco novos títulos bilíngues: Fotoperformance Popular, de Alex Oliveira; Palomas, de Dan Agostini; Catanduvas: reminiscências da revolução esquecida, de Giordano Toldo; Bambas, de Hudson Rodrigues; e Jequitinhonha Retrofuturista – Barroco Tupiniquim, de Katarina Lima Flor.
Com os novos lançamentos, a coleção chega a 30 fotolivros. A iniciativa parte da compreensão de que o livro pode ser mais do que um registro da produção fotográfica: pode funcionar como objeto artístico, documento e meio de circulação de uma pesquisa autoral.
A coleção também já teve títulos reconhecidos entre os melhores fotolivros do ano pelo Festival Zum, do Instituto Moreira Salles, e possui exemplares disponíveis para consulta na Bibliothèque nationale de France, em Paris.
A programação inclui ainda o Prêmio Fotolivro Artesanal, dedicado a experiências que exploram o livro como objeto, envolvendo papel, encadernação, construção gráfica e narrativa visual. Em 2026, o prêmio será entregue à fotógrafa baiana Helen Salomão.

Uma exposição que continua no papel
A edição deste ano amplia ainda mais essa estratégia de circulação. Os artistas participantes da mostra coletiva terão seus trabalhos reunidos em uma revista produzida pelo festival.
A publicação funciona como uma espécie de extensão da exposição. Se o espaço expositivo permite o encontro direto entre imagem e público, a revista possibilita que os trabalhos circulem para além do Monte Azul, sejam consultados posteriormente e integrem o repertório de artistas, pesquisadores, curadores e outros interessados na fotografia brasileira.
A iniciativa reforça uma ideia que atravessa o Photothings desde sua criação: uma obra não precisa ter apenas um momento de visibilidade. Exposição, livro, revista, conversa e formação são diferentes caminhos para que a produção artística permaneça em circulação.
Ao levar a fotografia contemporânea para a periferia, reunir diferentes gerações de artistas e investir simultaneamente em exposição, formação e publicação, o Photothings transforma seu próprio território de atuação em parte da discussão. A fotografia deixa de ser apenas aquilo que está diante da câmera e passa a ser também uma questão de acesso, circulação, memória e representação.
Nesse sentido, o festival não apenas apresenta fotografias. Ele cria condições para que novas imagens do Brasil sejam produzidas, vistas, discutidas e preservadas.
SERVIÇO
Festival Photothings 2026
Quando: 26 e 27 de setembro de 2026, das 14h às 18h
Onde: Centro Cultural Monte Azul – Av. Tomas de Sousa, 552, Monte Azul, São Paulo (SP)
Quanto: entrada gratuita
Programação: exposição coletiva; lançamento da Coleção Photothings 2026; lançamento da revista com os artistas da exposição; Diálogos Photothings; leituras de portfólio; cinco oficinas gratuitas.
Oficinas e leituras de portfólio têm vagas limitadas e exigem inscrição prévia.
Realização: Porto de Cultura
Idealização e direção artística: Marly Porto
Patrocínio/realização: ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa.


