Espírito da intimidade, de Sobonfu Somé, ganha nova edição
Obra escrita pela filósofa de Burkina Faso apresenta a cosmovisão do povo Dagara como um guia para os relacionamentos humanos pelas Edições Sesc São Paulo.
Publicada originalmente em 1997, nos Estados Unidos, e três anos depois no Brasil, a obra Espírito da intimidade, escrita pela filósofa burquinense Sobonfu Somé, chega em nova edição pelas Edições Sesc São Paulo. Com tradução inédita de Jess Oliveira, o livro apresenta a sabedoria do povo Dagara, da África Ocidental, para questionar a visão de amor romântico e o individualismo.
O lançamento encerra um hiato de mais de duas décadas da obra sem ampla circulação. Crescente durante os anos da pandemia de covid-19, o interesse pelo pensamento de Somé fez os raros exemplares remanescentes da primeira edição chegarem a ser comercializados a altos valores em plataformas de revenda de livros. A chegada dessa nova edição democratiza o acesso a um texto que se tornou fundamental para quem busca repensar os vínculos humanos em tempos de profunda crise das instituições tradicionais.
O espírito da aldeia e a força das relações
No decorrer de treze breves capítulos, Somé revela no livro como a conexão com a alteridade, a ancestralidade, a natureza e os rituais são essenciais para sustentar os relacionamentos humanos, transformando a intimidade em uma prática a serviço do bem comum. Esse fundamento coletivo reflete-se, inclusive, na criação dos filhos, que pertencem à comunidade e ao espírito, e não apenas aos pais. Desse modo, a comunidade como um todo oferece o suporte necessário à educação e ao cuidado das crianças, mantendo-as conectadas à própria essência e a seus propósitos de vida. Tal forma de cuidar dos filhos encontra ecos, por exemplo, nos modos tradicionais de criação dos povos indígenas e quilombolas brasileiros.
Contraponto necessário à nossa realidade, a voz de Sobonfu Somé defende como as redes de apoio são essenciais para a existência, visto que os indivíduos possuem um limite de recursos individuais e que, ao expandir essa rede, se estabelece um reservatório comum de força e sabedoria em que as necessidades são supridas e os fardos, divididos. Assim, amigos e familiares podem oferecer refúgio e perspectivas diferentes que nos aproximam dos nossos verdadeiros sentimentos e crenças. Essa interdependência atua, por exemplo, como um meio de resistência política e espiritual ao colonialismo, que, por sua vez, impulsiona o individualismo e o consumismo, substituindo, assim, os elos ancestrais por mercadorias e a vivência comunitária pela autonomia solitária.
Para Francis Weller e Julia Weller, que assinam o prefácio da obra, ela é mais do que um estudo cultural sobre afeto, sexualidade, divórcio, luto e pertencimento comunitário: “Trata-se de um convite para adentrarmos um cosmos vivo e vibrante, onde as relações entre as pessoas servem ao espírito, à comunidade e à ancestralidade“.

A realidade e o amor romântico
Ao basear-se em projeções do ego e em identidades mascaradas, o modelo relacional hegemônico do amor romântico sobrecarrega as relações humanas com expectativas individuais impossíveis de serem alcançadas, o que desgasta os sujeitos e fomenta o que, em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chamou de “epidemia da solidão”.
Para os Dagara, por outro lado, os relacionamentos humanos se estruturam com o apoio integral da coletividade e a recorrência dos rituais, que funcionam como dispositivos de reafirmação e aterramento das relações. Segundo Somé, ambos constituem uma base sólida para que a conexão entre as pessoas se mantenha viva e saudável.
Essa diferença de perspectiva estende-se até a dissolução dos vínculos. Na cultura Dagara, a ideia de divórcio, tal como a conhecemos, não possui um termo de sentido correspondente. Os pilares das relações e o fim delas são regidos por rituais individuais e coletivos de luto, partilha, renovação e cuidado, tendo o espírito como um guia intrínseco que oferece o suporte necessário à evolução mútua.
No livro, a filósofa explora ainda os sentidos simbólicos do feminino e do masculino, destacando que é essencial o equilíbrio desses princípios, uma vez que ambos habitam cada indivíduo, independentemente do gênero. Nesse contexto, a autora oferece outras perspectivas para o debate contemporâneo sobre as masculinidades, pois, na tradição Dagara, os homens contam com círculos de apoio nos quais a vulnerabilidade é permitida, um contraponto vital a uma sociedade que, ao isolar os homens em um uma autossuficiência agressiva, alimenta ciclos de frustração, ressentimento, misoginia e violência.
SOBRE A AUTORA
Reconhecida internacionalmente, Sobonfu Somé (c. 1965-2017) foi uma filósofa, escritora e professora burquinense que se dedicou a difundir a sabedoria ancestral de seu povo no Ocidente, com ênfase na coletividade, nas conexões humanas e na importância dos rituais no cotidiano. Ao deixar sua terra natal, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde fundou organizações, ministrou workshops e fomentou diversos diálogos interculturais, sempre com o intuito de preservar ensinamentos tradicionais e valorizar a importância da comunidade. Autora de diversas obras, Somé cultivou a ideia de que a busca por sentido em um mundo fragmentado e dissonante começa no reconhecimento de que “nós somos porque os outros são”, uma máxima que convida a refletirmos sobre os laços invisíveis que nos unem e nos orientam como sociedade.

SOBRE AS EDIÇÕES SESC SÃO PAULO
Pautadas pelos conceitos de educação permanente e acesso à cultura, as Edições Sesc São Paulo publicam livros em diversas áreas do conhecimento e em diálogo com a programação do Sesc. A editora apresenta um catálogo variado, voltado à preservação e à difusão de conteúdos sobre os múltiplos aspectos da contemporaneidade. Seus títulos estão disponíveis nas Lojas Sesc, na livraria virtual do Portal Sesc São Paulo, nas principais livrarias e em aplicativos como Google Play e Apple Store.

