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Armazém André Rebouças será transformado em grande complexo de memória negra no Rio de Janeiro

Edifício histórico diante do Cais do Valongo receberá centro de interpretação, memorial dedicado ao engenheiro negro e laboratório para preservação de mais de um milhão de peças arqueológicas.

Um dos mais importantes conjuntos patrimoniais relacionados à história da população negra no Brasil ganhará um novo espaço de referência no Rio de Janeiro. Localizado na região da Pequena África, diante do Cais do Valongo, o histórico Armazém Docas André Rebouças será restaurado e requalificado para abrigar um complexo cultural dedicado à memória afro-brasileira, à arqueologia urbana, à pesquisa e à difusão do patrimônio.

O projeto conta com R$ 86,2 milhões do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, e é coordenado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em articulação com o Ministério da Cultura e a Fundação Cultural Palmares. A proposta prevê transformar o edifício em um dos maiores complexos da América Latina dedicados à memória da população negra.

Com aproximadamente 14 mil metros quadrados, o imóvel deverá reunir diferentes equipamentos voltados à preservação e interpretação da história da diáspora africana no Brasil. Entre eles estão o Centro de Interpretação do Patrimônio Mundial Cais do Valongo, o Memorial André Rebouças e o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU).

Um novo centro de interpretação do Cais do Valongo

A futura ocupação estabelece uma relação direta entre o armazém e o Cais do Valongo, sítio arqueológico reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017. O cais é considerado um dos mais importantes lugares de memória do tráfico transatlântico de africanos escravizados nas Américas e integra um território marcado pela presença, resistência e produção cultural da população negra.

O Centro de Interpretação terá como uma de suas funções ampliar a compreensão sobre a herança africana, a diáspora e as transformações históricas da região portuária do Rio. A proposta combina ações de educação, pesquisa, cultura e preservação, aproximando o patrimônio arqueológico da sociedade.

A localização é especialmente significativa. O armazém está inserido em uma área que reúne lugares fundamentais da história afro-brasileira, como a Pedra do Sal, o Largo da Prainha, o Jardim Suspenso do Valongo, o Cemitério dos Pretos Novos e o próprio Cais do Valongo. O futuro complexo passa, assim, a integrar uma rede de lugares de memória que permite compreender a formação histórica e cultural da chamada Pequena África.

A memória de André Rebouças

O novo nome do edifício também representa uma mudança de perspectiva sobre a história brasileira. Em 2025, o antigo Armazém Docas Dom Pedro II passou oficialmente a se chamar Armazém Docas André Rebouças, em homenagem ao engenheiro, intelectual e abolicionista negro responsável pelo projeto original.

Construído no século XIX, o edifício é considerado um marco da engenharia nacional. Um de seus aspectos históricos mais relevantes está justamente na utilização de mão de obra livre, sem trabalhadores escravizados, em um período em que a escravidão ainda estruturava grande parte da economia brasileira.

André Rebouças (1838–1898) foi uma das figuras negras mais importantes do processo de modernização do Brasil no século XIX. Engenheiro e abolicionista, atuou em grandes projetos de infraestrutura e defendeu, além da abolição, medidas de integração social e econômica da população negra.

A criação do Memorial André Rebouças dentro do complexo permitirá ampliar o conhecimento sobre sua trajetória e sobre a contribuição de intelectuais, profissionais e trabalhadores negros para a construção do país.

Mais de um milhão de peças arqueológicas

Outro eixo fundamental do projeto será o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU). O espaço será responsável pela preservação, pesquisa e estudo de mais de um milhão de peças arqueológicas encontradas na região portuária do Rio de Janeiro, incluindo materiais provenientes das escavações do Cais do Valongo.

A dimensão do acervo revela a importância arqueológica da Pequena África. Objetos aparentemente cotidianos — fragmentos de cerâmica, moedas, adornos, utensílios e outros vestígios materiais — tornam-se documentos capazes de revelar aspectos da vida, das relações sociais, das práticas culturais e das experiências das populações que viveram e circularam pela região.

A presença do laboratório no mesmo complexo dedicado à interpretação do Cais do Valongo cria uma conexão entre pesquisa arqueológica, preservação patrimonial e acesso público ao conhecimento.

Divulgação IPHAN foto de João Paulo Engelbrecht
Divulgação IPHAN foto de João Paulo Engelbrecht

Patrimônio material e memória viva

A requalificação do Armazém André Rebouças amplia o significado do patrimônio da Pequena África. A proposta não se limita à restauração arquitetônica de um edifício histórico, mas articula diferentes dimensões da memória negra brasileira: a história da escravidão e da diáspora, as lutas abolicionistas, a contribuição de intelectuais negros, a arqueologia, as tradições culturais e as formas de resistência e criação que marcaram a região.

O projeto também se insere em uma estratégia mais ampla de valorização do patrimônio afro-brasileiro. O próprio Cais do Valongo, além do reconhecimento internacional da Unesco, passou a ser reconhecido em 2025 como patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro por legislação federal.

A transformação do antigo armazém em equipamento cultural cria, portanto, uma oportunidade para aproximar diferentes públicos de uma história que durante muito tempo permaneceu fragmentada ou pouco visível nos espaços oficiais de memória.

Um complexo conectado ao território

A futura estrutura deverá funcionar como espaço de pesquisa, formação, exposições, mediação cultural e difusão de conhecimento, estabelecendo diálogo permanente com o território e com as instituições e movimentos que atuam na preservação da memória da Pequena África.

A proposta também prevê a participação de diferentes atores ligados ao patrimônio do Valongo, fortalecendo a dimensão comunitária da gestão e da interpretação desse conjunto histórico.

Mais do que restaurar um edifício do século XIX, o projeto reposiciona o Armazém André Rebouças dentro da paisagem cultural do Rio de Janeiro. Diante do Cais do Valongo e no coração da Pequena África, o imóvel poderá se transformar em um lugar onde arqueologia, história, cultura e memória negra se encontram.

A expectativa é que o novo complexo contribua para ampliar o conhecimento sobre a presença africana e afro-brasileira na formação do Brasil e para consolidar a região portuária do Rio como um dos principais territórios de referência da memória da diáspora africana nas Américas.

O projeto

Armazém Docas André Rebouças
Av. Barão de Tefé, 75 – Saúde – Rio de Janeiro/RJ

Área: aproximadamente 14 mil m²
Investimento: R$ 86,2 milhões
Recursos: Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD), do Ministério da Justiça e Segurança Pública
Coordenação: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

Futuros equipamentos:

  • Centro de Interpretação do Patrimônio Mundial Cais do Valongo;
  • Memorial André Rebouças;
  • Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU);
  • espaços para exposições, pesquisa, formação, mediação cultural e atividades públicas.

O projeto executivo foi desenvolvido pelo Iphan entre 2020 e 2024, com investimento de R$ 1,3 milhão. O processo de contratação das obras avançou para a etapa de licitação, posteriormente concluída, mas a confirmação oficial mais recente consultada não informa uma data definitiva para a abertura do complexo ao público.