MASP apresenta “Histórias latino-americanas” e reúne diferentes narrativas sobre a América Latina
Exposição ocupa cinco andares do Edifício Pietro Maria Bardi, reúne 187 obras de 148 artistas de 20 países e percorre questões como colonização, migração, resistência, extrativismo, identidade e projetos de futuro.
A América Latina não é uma história única. É feita de encontros e conflitos, deslocamentos e permanências, memórias e invenções, projetos de modernidade e formas de resistência. É a partir dessa perspectiva que o MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta “Histórias latino-americanas”, uma grande exposição internacional que ocupa cinco andares do Edifício Pietro Maria Bardi a partir de 4 de setembro de 2026.
Com 187 trabalhos de 148 artistas de 20 países, a mostra reúne obras que atravessam o período pré-colonial e chegam à produção contemporânea. Pinturas, esculturas, fotografias, mapas, documentos, instalações, tecidos e vídeos colocam em diálogo diferentes experiências históricas e culturais da região.
A exposição investiga como a própria ideia de América Latina foi construída, representada e disputada ao longo do tempo. Colonização, extrativismo, migrações, diásporas, movimentos de resistência, organização comunitária, projetos de desenvolvimento e expectativas de futuro aparecem como questões que atravessam territórios distintos e, ao mesmo tempo, revelam experiências compartilhadas.
Com curadoria de Amanda Carneiro, curadora do MASP, e Julieta González, curadora-adjunta do museu, a mostra não pretende apresentar uma narrativa definitiva sobre o continente. Ao contrário, propõe um percurso aberto, capaz de aproximar diferentes temporalidades, geografias e formas de conhecimento.
“A região é uma zona de conflito e criação”, afirma Amanda Carneiro, destacando que a exposição busca ampliar a percepção sobre os diferentes regimes visuais, temporalidades e questões que constituem a experiência latino-americana.
Cinco perspectivas para olhar a América Latina
A exposição está organizada em cinco núcleos — “O mundo ao revés”, “Retórica do progresso”, “Sociedades americanas”, “Estamos em salsa” e “A queda do céu” — que não funcionam como capítulos fechados, mas como campos de aproximação entre obras, artistas e diferentes momentos históricos.

O mundo ao revés
O percurso começa com o conceito andino de pachakuti, associado a uma inversão radical da ordem do mundo. Para diversos povos indígenas, a invasão europeia produziu uma ruptura dessa natureza, alterando relações com território, tempo e conhecimento.
As obras reunidas neste núcleo refletem sobre a maneira como a colonização construiu imagens da América como território de riquezas naturais disponíveis à exploração europeia. O conjunto também aborda a formação de imaginários associados ao chamado “paraíso tropical” e as transformações provocadas pela presença europeia, incluindo as particularidades do barroco latino-americano.
Retórica do progresso
A promessa de modernidade ocupa o centro do segundo núcleo. Cidades, fábricas, rodovias, edifícios e projetos de urbanização aparecem como símbolos de um modelo de desenvolvimento que marcou profundamente a América Latina no século XX.
A exposição, porém, revela as contradições desse projeto: aquilo que se apresentava como progresso também esteve relacionado a mecanismos de controle, desigualdade social e devastação ambiental.
Em um diálogo direto com São Paulo, uma das janelas do Edifício Pietro Maria Bardi permite observar a Avenida Paulista, fazendo com que a própria cidade participe da exposição.
Entre os destaques está “Nuremberg Map of Tenochtitlan”, da artista mexicana Mariana Castillo Deball, uma obra comissionada que ocupa parte do piso da galeria. A instalação reproduz em grande escala um dos primeiros mapas europeus de Tenochtitlan, antiga capital do Império Asteca e atual Cidade do México.
Ao recuperar esse documento cartográfico, Deball evidencia como os mapas também foram instrumentos de classificação, administração e domínio dos territórios indígenas.
O núcleo reúne ainda obras comissionadas de JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), Marcela Cantuária, Marcelo Cidade, Manuel Chavajay, Maurício Lupini e Podeserdesligado.

Sociedades americanas
Se os projetos oficiais de desenvolvimento não cumpriram todas as promessas de modernização, diferentes comunidades criaram outras formas de organizar a vida coletiva.
“Sociedades americanas” apresenta experiências relacionadas a quilombos, cooperativas, movimentos camponeses e pedagogias populares. O núcleo volta o olhar para práticas de organização comunitária e para experiências que constroem alternativas concretas aos modelos dominantes de desenvolvimento.
As obras evidenciam que a história latino-americana também é construída a partir de iniciativas coletivas, formas de solidariedade e conhecimentos produzidos fora das estruturas institucionais tradicionais.
Estamos em salsa
O título do quarto núcleo remete à canção “Estamos en salsa”, lançada em 1978 pelo músico nova-iorquino de origem porto-riquenha Wayne Gorbea.
A salsa nasce de encontros entre matrizes afro-caribenhas, comunidades migrantes, bailes e circuitos musicais, consolidando-se em Nova York como expressão de uma experiência cultural marcada pela circulação de pessoas e referências.
O núcleo amplia essa discussão para as relações entre cultura, circulação de mercadorias e dependência econômica.
É nesse contexto que aparecem trabalhos como “Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Coca-Cola” (1970), de Cildo Meireles, e “Colombia” (1980), de Antonio Caro.
Na obra de Meireles, mensagens políticas são gravadas em garrafas retornáveis de Coca-Cola e recolocadas no circuito comercial, fazendo a crítica política circular pelo próprio sistema de distribuição da mercadoria.
Caro, por sua vez, interfere na conhecida identidade visual da Coca-Cola para relacioná-la ao nome de seu país, revelando as tensões entre identidade nacional, consumo e símbolos de uma economia globalizada.

A queda do céu
O último núcleo toma emprestado o título do livro “A queda do céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, publicado em 2010.
A destruição da floresta amazônica provocada pela invasão garimpeira aparece aqui não apenas como uma questão ambiental, mas como ameaça às próprias relações que sustentam a vida.
O núcleo aproxima sonho, mito e outras formas de conhecimento das experiências indígenas e das críticas aos modelos de progresso baseados na exploração dos territórios.
A exposição também incorpora essa perspectiva à própria montagem. Em vez de estabelecer divisões rígidas entre os núcleos, o projeto expográfico permite sobreposições e associações entre diferentes tempos e territórios.
A pintura “Metaesquemas” (1956–1958), de Hélio Oiticica, serviu como referência para a criação de painéis, blocos de cor e cortes diagonais que atravessam as galerias.
Assim, o visitante pode seguir o percurso proposto ou construir seus próprios caminhos, aproximando obras e ideias de acordo com seu olhar.
Uma exposição que não encerra a história
“Histórias latino-americanas” integra o ciclo curatorial “Histórias”, desenvolvido pelo MASP desde 2017. A proposta parte da compreensão de que as histórias podem ser pessoais ou coletivas, políticas ou privadas, documentais ou ficcionais, sempre abertas a novas interpretações.
Ao longo dos anos, o museu apresentou “Histórias da Sexualidade” (2017), “Histórias Afro-Atlânticas” (2018), “Histórias das Mulheres, Histórias Feministas” (2019), “Histórias da Dança” (2020), “Histórias Brasileiras” (2021–22), “Histórias Indígenas” (2023), “Histórias LGBTQIA+” (2024) e “Histórias da Ecologia” (2025).
Em 2026, a perspectiva se amplia para um território marcado por uma enorme diversidade de povos, culturas, línguas, experiências históricas e formas de imaginar o futuro.
A programação do ano inclui ainda exposições dedicadas a Jesús Soto, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Manuel Herreros e Mateo Manaure, Carolina Caycedo, Sol Calero, Damián Ortega, Colectivo Acciones de Arte, Claudia Alarcón & Silät, La Chola Poblete, Santiago Yahuarcani e Sandra Gamarra Heshiki.
Mais do que reunir obras sobre a América Latina, a exposição propõe olhar para as diferentes maneiras pelas quais o continente foi imaginado, representado, ocupado, explorado, transformado e reinventado.
É nesse movimento entre memória e presente, território e deslocamento, conflito e criação que “Histórias latino-americanas” encontra sua força: não como uma tentativa de definir o que é a América Latina, mas como um convite para perceber quantas histórias podem existir simultaneamente dentro dela.
Acessibilidade
Todas as exposições temporárias do MASP contam com recursos de acessibilidade. Pessoas com deficiência e seus acompanhantes têm entrada gratuita.
O museu oferece visitas em Libras e visitas descritivas, mediante solicitação, além de textos e legendas em fonte ampliada e conteúdos audiovisuais com audiodescrição, legendagem e interpretação em Libras.
Os conteúdos de acessibilidade também estão disponíveis no site e no canal do YouTube do MASP.

Catálogo
A exposição será acompanhada por um catálogo bilíngue, em português e inglês, com imagens e textos relacionados à mostra. A publicação reúne organização editorial e textos de Adriano Pedrosa, Amanda Carneiro e Julieta González.
Serviço
Histórias latino-americanas
MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Curadoria: Amanda Carneiro e Julieta González
Assistência curatorial: Teo Teotonio
Período: 4 de setembro de 2026 a 31 de janeiro de 2027
Local: Edifício Pietro Maria Bardi, 2º ao 6º andar
Endereço: Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista – São Paulo/SP
Horários:
Terças: 10h às 20h — entrada gratuita, com patrocínio Nubank
Quarta e quinta: 10h às 18h
Sexta: 10h às 21h — entrada gratuita das 18h às 20h30
Sábado e domingo: 10h às 18h
Segunda: fechado
Ingressos: R$ 85 (inteira) e R$ 42 (meia-entrada)
Agendamento on-line obrigatório.
A exposição é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio master de Nubank e patrocínio Vivo.

