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Exposição “Encantadas” traz a arte em cerâmica das mulheres indígenas Jenipapo Kanindé

Mostra fica até 30 de abril no São Paulo Gallery, da SP-Arte 2026.

A arte em cerâmica feita pelas mulheres indígenas da etnia Jenipapo Kanindé presente na exposição “Encantadas – Mulheres Jenipapo Kanindé e a Memória Viva das Árvores” revela, ao mesmo tempo, o grito e o sussurro, uma oferenda artística e ambiental nas vozes, nos corpos e pelas mãos que conectam saberes, histórias e natureza presentes no território nativo do município histórico de Aquiraz, na região metropolitana da Fortaleza, e que foi a primeira Capital do Ceará.

A mostra “Encantadas” reúne aproximadamente 50 obras produzidas no Ateliê de Cerâmica da ONG Tapera das Artes, referência nacional no fomento à cultura, sob a direção artística pedagógica da ceramista Denise Saboia e traz a oferenda das mulheres indígenas ao circuito da SP-Arte, sob a curadoria de Ana Carolina Ralston.

Realização do Ministério da Cultura, a mostra celebra o protagonismo indígena feminino em um manifesto sensível na defesa da vida e das florestas e representa também a evolução de uma colaboração de longa data entre a Roca Brasil e a Tapera das Artes, construída ao longo de dez anos. Ao unir arte, educação e impacto social, a iniciativa fortalece saberes do território e amplia sua presença em novos circuitos expositivos.

Em grandes potes de cerâmica modelados à mão — uma tradição milenar —, as artistas mulheres indígenas da aldeia inscreveram o que a linguagem ocidental na era contemporânea raramente consegue nomear: a relação de parentesco entre o corpo feminino e as árvores nativas do seu território. As tramas dos troncos, na tessitura das impressões digitais das árvores, marcam a luta incansável pela sobrevivência do ser, do verde. Peixes que nadam entre rendas brancas sobre argila crua e folhas soltas de cajueiro impressas no ventre de vasos mostram com leveza que a esperança estampada em cada obra é um tratado de cosmologia feito com as mãos, que, agora, transformam esses saberes em forma, volume e pigmento — levando à SP-Arte, o que sempre existiu no território como resistência cotidiana.

As obras foram concebidas e executadas durante processo coletivo de criação realizado nas imersões pelos cantos mágicos da mata existente no entorno da Lagoa Encantada — que já traz no próprio nome o eco de magia que permeia a exposição –, localizada no município de Aquiraz (CE). Parte delas passou ainda por uma etapa singular: a queima em forno industrial da empresa Roca, patrocinadora do projeto pedagógico da Tapera das Artes, numa experiência em que tecnologia e ancestralidade dividiram o mesmo espaço físico, como se o tempo dobrasse sobre si mesmo.

Para além do suporte técnico, a presença da Roca evidencia seu compromisso contínuo com o estímulo ao design e à produção cultural nos contextos em que atua, sendo um princípio estruturante da companhia, que se materializa também em plataformas e eventos dedicados à promoção de encontros entre diferentes linguagens e repertórios.

Num momento em que o desmatamento da Caatinga e a especulação sobre terras indígenas atingem índices alarmantes, as “Encantadas” recusam o silêncio. Cada vaso, cada marca de folha impressa na argila, cada renda branca sobre o barro cru é também uma linha de frente: a arte como forma de demarcação simbólica do território, como gesto político de mulheres que compreendem que defender a floresta é defender a si mesmas. “A terra não nos pertence, nós é que pertencemos a ela“, dizem as mulheres Jenipapo Kanindé. E as obras dizem o mesmo, sem precisar de palavras.

Ao moldar a argila com cascas de árvores, sementes e folhas, sinto que estou semeando a memória da floresta nas mãos das alunas indígenas, perpetuando a sabedoria da terra e a resiliência da cultura.” Diz Denise Saboia, diretora artística e pedagógica do atelier de cerâmica da Tapera das Artes.

As mulheres Encantadas da etnia Jenipapo Kanindé não são apenas artesãs, são raizeiras, parteiras de saberes, guardiãs de uma biblioteca viva que não cabe em nenhuma prateleira. São elas quem conhecem qual planta cura, qual alimenta, qual protege espiritualmente. São elas que pedem licença à floresta antes de colher qualquer folha“, diz Ritelza Cabral, fundadora da Tapera das Artes.

A poesia criada pelas mulheres Jenipapo Kanindé em formas, texturas e cores nos objetos selecionados para esta exposição resgatam a visão cosmológica e ancestral necessária para que a conexão com o mundo ambiental não se perca. A mostra é um potente e instigante ponto de contato entre o universo das artes e a natureza, algo que deve ser fomentado cada vez mais“, reflete Ana Carolina Ralston, curadora e pesquisadora.

As ‘Encantadas’ expõem a íntima correspondência entre o ciclo da mulher e o ciclo das árvores — o florescimento, a frutificação, a dormência, o renascimento. O corpo feminino que sangra com a lua é o mesmo que sabe quando plantar e quando deixar a terra descansar“, diz Glaubiana Alves, presidente da Associação das Mulheres Indígenas Jenipapo Kanindé, parceira da Tapera das Artes.

Sobre a Tapera das Artes

Organização social sem fins lucrativos sediada em Aquiraz, no litoral leste do Ceará, a Tapera das Artes atua há 43 anos promovendo cultura, educação e transformação social. Desde sua fundação, cumpre um papel central em seu território, oferecendo formação integral e estimulando o desenvolvimento do potencial humano e o enriquecimento cultural de crianças, adolescentes, jovens e seus familiares.

Com metodologia própria e projetos que têm a arte como eixo de encantamento, formação e profissionalização, a instituição já impactou mais de 25 mil pessoas nos últimos 10 anos, por meio de 24 ateliês formativos organizados em dois grandes eixos: o Programa de Educação Coletiva de Música e Formação Cultural e o Programa de Tecnologia, Inovação e Profissionalização. Suas ações alcançam atualmente os estados do Ceará, Rio Grande do Norte e São Paulo.

Paralelamente às atividades formativas, a Tapera das Artes também desenvolve projetos expositivos que ampliam o alcance de sua produção artística e cultural. Entre eles está a exposição “Universo Singular”, apoiada pela Roca e instalada no Ponto de Cultura Atelier Travessia, em São Paulo, que apresenta instrumentos musicais artesanais criados pelos jovens luthiers de Aquiraz, revelando que cada som carrega uma história, cada forma um gesto e cada matéria um pulso de vida.

Com olhar voltado à preservação da cultura popular e dos saberes ancestrais do Nordeste, a Tapera das Artes é também realizadora da exposição “Encantadas”, que leva ao circuito nacional a arte das mulheres indígenas Jenipapo-Kanindé de Aquiraz.

As duas exposições se harmonizam no propósito de apresentar a arte como instrumento de expressão, reflexão e transformação. Uma arte contemporânea viva e comprometida com algo que vai além da estética — capaz de revelar histórias de vida, territórios e identidades para o mundo.

Sobre a Roca

O Roca Group é líder mundial em design, produção e comercialização de soluções para o espaço de banho, destinadas à arquitetura, à construção e ao design de interiores. Fundado em Barcelona em 1917, une tradição e conhecimento com a paixão pela inovação e o respeito ao meio ambiente, com o objetivo de antecipar as necessidades das pessoas e contribuir para a melhoria do bem-estar da sociedade.

Com marcas globais reconhecidas, como Roca e Laufen, e tendo a sustentabilidade como eixo central de sua estratégia, o Roca Group promove uma cultura corporativa responsável nos 170 países em que atua e em suas 78 fábricas, graças ao compromisso diário de seus mais de 20.000 profissionais. Essa abordagem foi reconhecida com a Medalha de Platina da EcoVadis, padrão global em avaliações de sustentabilidade empresarial, pelo seu desempenho de excelência.

Desde 2016, a empresa é uma das principais patrocinadoras da Tapera das Artes, reafirmando seu compromisso com um futuro mais justo, criativo e sustentável para as próximas gerações. Mais do que apoio financeiro, a colaboração entre as duas organizações – Roca e Tapera das Artes – se concretiza em ações que fortalecem a comunidade, incentivam o acesso à educação e valorizam a ancestralidade e a cultura popular brasileira.

(texto de Alisson Schafascheck, fotos divulgação)

Serviço

Exposição: ENCANTADAS — Mulheres Indígenas Jenipapo Kanindé e a Memória Viva das Árvores
Local: São Paulo Gallery, na Av. Brasil 2188, Jardim América -SP
Período: 01 a 30 de abril de 2026
Realização: ROCA e TAPERA DAS ARTES
Artistas: Mulheres da Etnia Jenipapo Kanindé — Aldeia Lagoa Encantada, Aquiraz – CE
Direção Artística Pedagógica- Denise Saboia
Curadoria- Ana Carolina Ralston
Produção Executiva – Travessia Produções Artísticas
Técnica: Cerâmica modelada à mão, impressão botânica e pintura com engobe branco sobre argila natural
Temática: Relação das mulheres indígenas com as árvores nativas do território — espiritualidade, cosmovisão e resistência ambiental
Fotografia: Gentil Barreira
Videoinstalação: Alumeia Filmes