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Iphan reconhece Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado como Patrimônio Cultural

Saberes ancestrais ligados ao uso de plantas medicinais, ao cuidado comunitário e à preservação do Cerrado passam a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro.

O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou, em 10 de junho, o registro do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado no Livro de Registro dos Saberes, reconhecendo uma prática transmitida há gerações por comunidades tradicionais em diferentes regiões do país.

O reconhecimento valoriza um conjunto de conhecimentos que une medicina popular, espiritualidade, manejo sustentável da natureza e transmissão oral de saberes. Presente em comunidades quilombolas, indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas dos estados abrangidos pelo bioma Cerrado, o ofício tem nas mulheres suas principais guardiãs. Mães, avós e madrinhas são responsáveis por preservar e compartilhar conhecimentos que atravessam gerações.

Um saber que nasce da relação com a natureza

O trabalho das raizeiras e dos raizeiros começa muito antes da preparação de chás, xaropes, garrafadas, pomadas ou tinturas. Ele envolve o conhecimento profundo das plantas medicinais, a observação dos ciclos da natureza e o respeito aos territórios onde essas espécies se desenvolvem.

A coleta das plantas segue princípios éticos e espirituais. Em muitas comunidades, ensina-se que é preciso pedir licença à natureza antes da colheita, garantindo que a retirada dos recursos não comprometa a regeneração das espécies.

O aprendizado ocorre por meio das chamadas caminhadas experienciadas, uma metodologia tradicional em que o conhecimento é transmitido diretamente no território. O saber é compartilhado pela observação, pelo toque, pelos aromas e pela convivência com o ambiente natural.

Depois da coleta, os remédios são preparados nas chamadas farmacinhas comunitárias, espaços que funcionam como centros de cuidado e transmissão de conhecimento. Além de oferecer medicamentos naturais a preços acessíveis — ou gratuitamente para quem necessita — esses locais cumprem um papel fundamental na formação de novas gerações de praticantes.

Cerrado: território de vida e conhecimento

O reconhecimento do ofício está diretamente ligado à preservação do Cerrado, considerado uma das regiões com maior biodiversidade do planeta. O bioma abriga mais de 220 espécies vegetais com propriedades medicinais catalogadas, entre elas o barbatimão, o jatobá e diversas outras plantas amplamente utilizadas na medicina tradicional.

Para as comunidades detentoras desse saber, o Cerrado não é apenas um espaço geográfico, mas uma extensão da memória coletiva e da identidade cultural. A sobrevivência do ofício depende diretamente da conservação do bioma.

Raizeira do Quilombo do Cedro, em Goiás, Lucely Pio resume essa relação ao questionar como será possível ensinar as futuras gerações a preparar remédios tradicionais se as espécies medicinais desaparecerem. Para ela, a destruição do Cerrado representa também a perda de uma forma de viver, cuidar e compreender o mundo.

Entre resistência e reconhecimento

Apesar de sua importância social e cultural, o ofício das raizeiras e dos raizeiros enfrentou, ao longo das últimas décadas, episódios de criminalização e preconceito. O dossiê que fundamentou o registro aponta que muitos desses conhecimentos foram historicamente desvalorizados ou tratados como práticas ilegítimas.

Um dos relatos presentes no documento é o de Dona Francisca, raizeira de Goiânia, que chegou a ser levada para prestar esclarecimentos após denúncias relacionadas ao funcionamento de sua farmacinha comunitária. Na ocasião, ao ser questionada sobre a produção de remédios caseiros, respondeu:

“Eu não faço remédio. Eu sirvo à comunidade.”

A frase sintetiza a dimensão coletiva do ofício, que vai muito além da produção de medicamentos naturais. Trata-se de uma prática de cuidado, acolhimento e fortalecimento comunitário.

Cultura viva e patrimônio coletivo

Durante a sessão que aprovou o registro, o presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, destacou a importância da participação de representantes dos povos e comunidades tradicionais nos processos de reconhecimento do patrimônio cultural brasileiro.

A relatora do processo, a advogada quilombola e pesquisadora Vercilene Francisco Dias, emocionou os presentes ao lembrar sua própria trajetória familiar ligada aos saberes tradicionais. Filha, neta, bisneta e tataraneta de raizeiras e raizeiros do Cerrado goiano, ela ressaltou que esses conhecimentos foram fundamentais para a resistência e a sobrevivência de seu povo.

Para Vercilene, o reconhecimento representa mais do que a valorização de uma prática ancestral. É também o reconhecimento de que os conhecimentos produzidos por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais possuem legitimidade, ciência, ética e espiritualidade.

Com a inscrição no Livro de Registro dos Saberes, o Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado passa a integrar oficialmente o conjunto de bens culturais imateriais do Brasil, fortalecendo a proteção de um patrimônio vivo que conecta saúde, memória, natureza e identidade cultural.

Acesse o IPHAN

Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado é reconhecido como patrimônio cultural pelo Iphan